Pontos corridos ou mata-mata? Eis a questão

Todo ano é a mesma conversa. Quando um time dispara na frente na disputa do Campeonato Brasileiro, já começam a conversa de que a disputa pelo sistema de pontos corridos (aquele em que todos os times enfrentam todos e aquele que pontuar mais é o campeão) é uma porcaria e que o bom é o mata-mata (onde alguns times se classificam para uma nova fase e fazem confrontos eliminatórios até a decisão) é o melhor. Será mesmo?

Cruzeiro, campeão em 2014 (Imagem do site O Fino da Bola)

Vamos olhar um pouquinho a história e logo darei meu pitaco e uma sugestão.

Historicamente, os campeonatos nacionais ao redor do mundo são em pontos corridos mesmo. Existem raras exceções, como a Major League Soccer (MLS) nos Estados Unidos, mas como os norte-americanos já possuem uma tara natural por mata-mata, é compreensível que a liga deles siga a mesma toada do futebol americano, do basquete, do beisebol etc.

Major League Soccer (MLS) dos Estados Unidos: uma exceção (Foto: ISIPhotos.com via SBI Soccer)

Aqui no Brasil não foi diferente, logo que Charles Müller trouxe algumas bolas e um livro de regras para a prática do esporte bretão no país, no fim do século XIX, as federações criadas para organizar a bagaça nesta terra, já no século XX, optou pela simples fórmula de todos contra todos e pontos corridos. Sem choro, nem vela.

Ao longo dos anos, a profissionalização do esporte na década de 1930 e o surgimento de competições internacionais, como a Copa do Mundo, fizeram abrir os olhos para novas necessidades. Mesmo assim, as principais competições no país, que na época, eram os estaduais, tinham a mesma fórmula do começo: pontos corridos.

Com as equipes podendo se desenvolver mais nacionalmente e o surgimento de mais competições (em âmbito nacional e internacional), mais opções de torneios no modo mata-mata apareciam, mas ainda sem o glamour dos estaduais.

Santos dos anos 1960: a equipe que mudou a mentalidade do futebol brasileiro (Foto: Imortais do Futebol)

A coisa começou a mudar mesmo a partir da década de 1960, quando o Santos se consolidou como principal potência futebolística no período, liderado pelo histórico ataque de Doval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. O alvinegro da Vila Belmiro ganhava os campeonatos com muita folga e não tinham oponentes regulares a altura.

Para colocar a casa em ordem, os dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, que antigamente abrangia todos os esportes, mas que hoje é a atual CBF, Confederação Brasileira de Futebol) e das federações estaduais, decidiram mudar a fórmula das competições, visando dar uma chance para a concorrência, especialmente o Botafogo, de Garrincha, e o Palmeiras, da Primeira Academia.

Com isso, todos os torneios do Brasil passaram a ser mata-mata. Apesar do predomínio do Santos nos anos 60, muitos times aproveitaram o momento e conseguiram a sua glória, como os já citados Botafogo e Palmeiras, além do Cruzeiro, campeão da Taça Brasil de 1966.

Campeonato Brasileiro de 1971, vencido pelo Atlético/MG (Foto: Blog Mais Memória)

A Taça Brasil, que depois virou Torneiro Roberto Gomes Pedrosa, tornou-se depois a Taça de Ouro, que viria a ser chamado de Campeonato Brasileiro, a partir de 1971. A principal competição do país passou a ser a grande referência aos clubes da nação.

Contudo o certame nacional foi a prova da falta de organização presente no Brasil desde sempre. Entre a edição de 1971 até a de 2003, nenhuma vez a fórmula de um ano se repetiu no ano anterior. Sempre se mexia em alguma coisa em relação às fases classificatórias, ao rebaixamento, à quantidade de times e outras coisas.

Algumas edições beiraram ao bizarro, como o certame de 1979, com 94 equipes, sendo que não possuía os principais times de São Paulo (exceto o Palmeiras), por desavenças com a CBD; a virada de mesa em 1997; a Copa João Havelange, de 2000; além da fatídica Copa União de 1987, em que não há um consenso até hoje sobre o campeão daquela edição (Flamengo ou Sport Recife).

Taça das bolinhas: Até hoje, sem dono definitivo (Foto: Globoesporte.com)

A partir de 2003, a CBF determinou a criação do Campeonato Brasileiro na forma de pontos corridos. Esta fórmula foi o primeiro passo para uma possível adequação do calendário de futebol no país. Desde então tivemos 12 edições, e em metade delas, a disputa pelo título terminou antes da última rodada.

E sempre quando isso aconteceu, os defensores do mata-mata vieram à tona nas mesas-redondas da televisão e (principalmente) na internet, opinando que os pontos corridos matam a emoção do campeonato e que o mata-mata dá mais diversão.

As alegações variam em vários aspectos, como a audiência, a atenção do público, a economia, a empolgação da disputa etc. Os defensores dos pontos corridos se defendem com o aspecto da justiça moral do vencedor do campeonato, que teria o vencedor mais legítimo.

Sou mais defensor dos pontos corridos que do mata-mata. Todas as competições que ocorrem fora do Brasileiro são de mata-mata. Entendo a questão do glamour de cada certame, mas acho que os clubes tem o dever de se adequar a um ambiente de melhor organização.

Ainda há aqueles que são mais resistentes, que reclamam que o futebol tem que ser uma coisa mais livre, sem as “amarras corporativas”, como se isso fosse sinônimo de futebol-arte, imagino que haja um ledo engano. Afinal de contas, sempre que o Brasil ganhou uma Copa, havia uma estrutura bem organizada. Paulo Machado de Carvalho certamente revira-se no seu túmulo ao ouvir tamanha baboseira. E deixar pra lá e ir ao caminho contrário é a prova que não dá certo. Aquela semifinal do Mineirão diz muita coisa a respeito.

Não precisa ir muito longe para lembrar a diferença entre organização e desorganização, né? (Foto: AFP via Los Andes/ARG)

Mas é claro, que a organização tem que vir com talento e capacidade da equipe. Nada tira o mérito das conquistas, seja a fórmula que for. O título do Cruzeiro no Brasileiro de 2014 foi tão justo quanto o do Atlético Mineiro na Copa do Brasil. Eis a prova de como se pode ser bem-sucedido nas duas áreas. Os mineiros têm a receita.

Se você chegou até aqui e não fechou a aba ou a janela de seu navegador, aproveito o espaço para deixar a minha sugestão para dar uma incrementada no campeonato de pontos corridos, para diminuir prejuízos.

A minha sugestão é olhar aos nossos vizinhos. As ligas dos demais países da América do Sul são divididas em dois turnos, que se tornam dois torneiros distintos, geralmente chamados de Apertura e Clausura (ou Transición, como tem sido usado na Argentina, ultimamente).

Racing, campeão argentino em 2014 (Foto: AP via Fox Sports)

Fazendo um rascunho para a temporada inteira do futebol no país, faria o seguinte:

-Janeiro seria usado apenas para pré-temporada

-Em fevereiro, começa o primeiro torneio (pode chamar de Torneio Abertura, ou então nomeá-lo com homenagem a alguém importante no futebol, como já tem o troféu Osmar Santos, dado pelo Lance! ao campeão do primeiro turno do Brasileiro há alguns anos)

-A competição vai até maio, com a Libertadores e a Copa do Brasil rolando junto (mantenha-se a mesma fórmula para as outras competições, já que é difícil de mexer nesse ponto do calendário, diante da posição dos vizinhos sul-americanos)

-Entre junho e agosto, pode usar o período para uma pausa, já que nesta época temos torneios de seleções, como a Copa do Mundo, e aí, podemos realizar os estaduais, com torneios de tiro curtíssimo. (Pode-se fazer uma fase preliminar com os clubes menores, começando em abril ou maio, caso estes não estejam disputando a Série A ou B do Brasileiro). Além disso, a fase final da Libertadores estará rolando, e os times brasileiros poderão se dedicar de corpo e alma nessa reta final

-Aí, para o fim de agosto ou início de setembro, começa o segundo torneio (mesmo esquema do primeiro torneio, o Lance! chama o segundo turno de troféu João Saldanha) Ao mesmo tempo, define-se a Copa do Brasil, além de ter a Copa Sul-Americana.

-Lá para o começo de dezembro, o campeão será definido e a temporada se encerra com dois campeões brasileiros, podendo dar as férias aos jogadores.

-Vagas para a Libertadores: Os dois campeões entram direto, assim como as duas equipes que somaram mais pontos juntando os dois turnos, além do campeão da Copa do Brasil e o campeão da Libertadores, caso seja brasileiro.

-Rebaixamento: Cairiam os quatro times de pior campanha somando os dois turnos (mantendo o mesmo número atual). Para a Série B, se adotássemos a mesma fórmula, subiriam os campeões de cada turno e mais os dois que somaram mais pontos.

Não faria um jogo final, a fim de definir um novo campeão, até para enxugar o calendário. É o meu pitaco. O que você acha?

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5 comentários sobre “Pontos corridos ou mata-mata? Eis a questão

  1. Em primeiro lugar, parabéns pelo texto, Casola. Muito bem escrito e magistralmente ilustrado.

    Quando comecei a ler, já fui ficando com os dedos nervosos. “Vou dar minha opinião genial sobre dois turnos com dois campeões e esperar os parabéns”, pensei. Touché, obviamente que um cara inteligente como você não deixaria passar uma dessas.

    Para não ficar só na rasgação de seda, tenho opiniões um pouquinho diferentes sobre o assunto:

    – não começaria o ano em janeiro. Independente de se gostar ou não, o mercado da bola segue o calendário europeu, e os clubes acabam esvaziados no segundo semestre. Acho que uma pré-temporada entre meados de junho ao início de agosto, com um primeiro turno até novembro, férias de verão e um segundo turno a partir do final de janeiro seria mais interessante. Claro que precisaremos lutar contra a inércia inicial e a questão histórica, mas acabaríamos acostumando com a nomenclatura “Brasileirão 2015/2016”.

    – Sou um defensor da final entre os campeões dos turnos; isso não tiraria o mérito dos times, provocaria uma maior atenção aos jogos decisivos, aumentaria a renda direta e a indireta – que tal uma melhor de três, com o time melhor colocado geral fazendo o segundo jogo em casa e, na necessidade de desempate, este ser em praça neutra previamente divulgada, como o Super Bowl? Imagine um Cruzeiro X Grêmio em Salvador, por exemplo? Qual o ganho com turismo?

    – No lugar dos estaduais, torneios regionais. Algo como uma Copa Sul, por exemplo: quatro times do PR, SC e RS, dois grupos de seis em turno único (5 datas), semifinais (2 jogos) e finais (2 jogos). Em nove jogos teríamos o campeão, com vaga para a Sul Americana, por exemplo. Como efeito colateral, já que os três times de maior torcida do estado teriam vaga cativa, a quarta vaga seria decidia num campeonato (daí sim estadual) entre as equipes menores, longo, de turno e returno, que garantiria calendário para o ano inteiro.

    Bom, de ideias idiotas o mundo está cheio, então paro por aqui. Que os cartolas descubram logo a Estante, se quiserem fazer a coisa direito.

    Abraços.

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  2. O correto seria:
    Os estaduais (com uns 12 times por divisao) durarem o ano todo, em turno e returno, pontos corridos, com os melhores se classificando a um mata-mata regional, de umas 4 datas no máximo.;
    Copas estaduais abertas (tipo FA cup);
    Nova libertadores: primeira fase regional (brasil com torneio a parte): Campeoes regionais direto na fase de grupos e das copas estaduais na fase preliminar. Vagas distribuídas por estaduais por ranking, com a maioria com uma vaga, e o melhor com ate 5 vagas. Os estaduais tb classificando pra fase preliminar. Campeao (e vice, dependendo do ranking) direto nas quartas de finais da libertadores (onde se cruzam as chaves sulamericanas e da concacaf).
    Campeao da libertadores na semifinal do mundial fifa. Caso algum americano seja o pais sede, jogo preliminar entre os 2 times.

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  3. Fala CASA! Velho Trapi na area!

    Lindo blog. Meu, mata-mata so’ e’ bom para o Flamengo, para o Corinthias e para a rede globo. O mata-mata possibilita a roubalheira visando ajudar um ou outro. O certo e’ ponto corridos mas…o que e’ certo? Para o povo brasileiro, o certo e’ o mata-mata pq neguin quer mesmo e’ zoar, se diverter.

    Entao, mata-mata para o Brasil! Isso mesmo ! Deixa o Flamengo ser campeao 20 vezes; e’ o que o povo quer.

    So’ nao reclamem se o Brasil levar de 7×1 depois, certo? E se times como o Fluminense, Atl-MG, Santos, etc desaparecerem. E’ isso que o povo quer certo? Entao, mata-mata neles…

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    • Uma duvida…
      O campeonato tinha uma diversidade maior de campeoes qdo tinha mata-mata ou depois dos pontos corridos? E depois dos pontos corridos, brasileiro ou copa do Brasil?
      Outra:
      O Brasil ja tinha tomado de 7×1 na era do mata-mata? Ganhou quantas copas antes disso? E depois de 2003?

      Mais uma duvida?
      A questao sobre roubalheira sempre recai sobre os times da maiores torcidas, então aí vai:
      Depois de 2003, flamengo e corinthians nunca mais foram campeoes? E o sao Paulo (terceira maior torcida do pais)?
      De 12 títulos disputados, quantos foram para fora do eixo rj-sp?

      Bem, parece que vc nem sabe qual a sua opinião, pois seus argumentos apontam justamente para a direção oposta a que vc tentou defender…

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